Os podcasts que eu ouço

Em ordem alfabética. O iTunes não está me deixando pegar as URLs dos feeds — procurem no Google.

  • Art of Manliness
  • The Big Money
  • The Bitterest Pill
  • Comedy Factory from CBC Radio
  • Coyle and Sharpe: The Impostors
  • The Economist
  • EconTalk
  • Escape Pod
  • Everyday I Read the Book
  • The History of Rome
  • I, Cringely
  • Jordan, Jesse, GO
  • Kunstlercast: the Tragic Comedy of Suburban Sprawl
  • L’actualité musicale selon Bande à part
  • Laugh out Loud from CBC Radio
  • Louis C.K., comedian
  • Math for Primates
  • Mes paroles s’envolent
  • NPR Topics: Arts & Life
  • NPR Planet Money
  • Planetizen
  • PRI: Design for the real world
  • PRI: Science and creativity from Studio 360
  • PRI: The Sound of Young America
  • Pseudopod
  • Slate Poetry Podcast
  • Slate Culture’s Gabfest
  • Studio 360 with Kurt Andersen
  • WNYC’s Radiolab

E, embora não esteja disponível como podcast, não se pode deixar de mencionar o excelente programa de áudio The Age of Persuasion, que pode ser ouvido no site.

Não confio em produtos de higiene que não podem ser usados em bebês.

Rascunhos sobre o Grande Alagão de 2010

O Rio é uma cidade de cidades misturadas
O Rio é uma cidade de cidades camufladas
Com governos misturados,camuflados, paralelos
Sorrateiros, ocultando comandos…

Sorry, sem morfogênese hoje. É cedo ainda para tirar conclusões, não estou informado o suficiente para analisar em profundidade o Grande Alagão de 2010, e paradoxalmente trabalhei mais e dormi menos nos dias em que fiquei em casa. Estou intelectualmente cansado, mas, de alguma forma, a diversidade (e superficialidade) das análises pipocando nos blogs me impeliu a registrar as minhas próprias reações imediatas, antes que a lama escorra e o dilúvio de informação restaure o clima da cidade ao seu devido lugar na hierarquia do cérebro limitado. Mas deve-se notar que eu não saí do meu apartamento no vigésimo andar do que provavelmente é o mais antigo condomínio da Barra, sendo informado apenas pela internet, TV e dispatches da minha noiva, que ao contrário de mim lê jornais regularmente. A minha perspectiva, portanto, é limitada. Não molhei os pés (ainda; estou saindo de casa hoje) no Grande Alagão de 2010. Caveat lector.

A primeira reação no Twitter, nos blogs ali espameados e nos fóruns d’O Globo mostrou uma preocupação prematura com as causas da crise, acima da incógnita mais concreta do prognóstico a curtíssimo prazo – se teríamos, afinal, uma cidade funcional antes do fim de semana. Pipocaram chutes tirados do nariz travestidos de análise, nas quais predominou o discurso da culpa e do singular culpado. Alternadamente, foram apontados como únicos perpetradores a falta percebida de planejamento das autoridades e a preguiça carioca que entope os bueiros. A pressa de responder, evidentemente, traduz as atitudes dos mais apressadinhos, uma minoria que tem fome de ordem mas não sabe por onde começar, culminando em clamores periódicos pela intervenção militar.

Mas tanto o julgamento sumário e condenação dos planejadores como aquele da eliminação desordenada do lixo são, em parte, uma reação de auto-crítica das nossas consciências coletivas, que em algum nível comemoram com Fernanda Abreu a cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos. Esta é a mesma celebração inscrita na atitude otimista daqueles que ficaram ilhados pela cidade esperando ônibus, andando quilômetros pelas linhas de trem e enfrentando a noite não dormida sem mau humor ou depressão. O caos faz parte da lei orgânica da cidade, tão imiscuído na law of the land informal que os responsáveis pelo enforcement das regras formais da lei escrita freqüentemente se encontram maniatados ou completamente apáticos.

Em contraste, a reação das autoridades executivas – Paes e Cabral – registrada na mídia foi surpreendentemente madura nos primeiros momentos do alagão, esquivando a tentação demagógica de culpar heranças malditas e governos paralelos (estaduais e municipais), sem camuflar o questionamento constante sobre as causas com truques aristotélicos e assumindo a responsabilidade compartilhada dos governos presentes pelos problemas presentes. É bem verdade que ao ordenar ao seu povo que fique em casa, na manhã da terça-feira 6, Paes não fez mais do que sancionar a law of the land, mas os agentes do poder público parecem ter realmente enfiado o pé na lama, como se um senso de dever ou elitismo tivesse desencadeado uma reação paradoxal ao influxo da desordem que o carioca tanto ama. No fim, toda lei tem seus recalcitrantes, sejam os apáticos maconheiros ou os louváveis funcionários dos bombeiros, defesa civil e outras categorias que foram mobilizadas para tapar os buracos para que a cidade funcionasse ao menos parcialmente na quarta-feira 7.

Parece-me – mais uma vez, da altura do vigésimo andar – que o Grande Alagão teve duas fases, a celebratória e a lacrimejante. A fase celebratória compreende o período em que as chuvas cortaram o trânsito para a maior parte do Rio, na noite da segunda-feira 5 até a normalização do core da cidade nas horas finais da madrugada do dia 6 para o 7. Este core, entenda-se, abrange mais ou menos o Jardim Botânico, sede da Globo, os “bairros de novela” (Gávea, Leblon, Ipanema) e as vias de acesso aos centros empresariais na praia de Botafogo e no Centro propriamente dito. A normalização do core deixou a Barra virtualmente isolada, tendo em vista o fechamento da av. Niemeyer e o caos na Linha Amarela, mas isso não tinha relevância, em boa medida porque existiam mais problemas mais urgentes que vinham sendo obscurescidos pela deslumbrante desordem no core.

Durante a fase celebratória, homens (e mulheres e transsexuais e praticantes do futevôlei) que têm trabalhos duros durante o dia permaneceram em pé durante a madrugada inteira sob uma intempérie que me perturbava só pelo som da chuva na parte exposta do ar-condicionado – sem riots (palavra intraduzível, que carrega simultaneamente sobretons de baderna e revolução), sem raiva aparente, ostentando uma atitude estóica que na presença dos repórteres se traduzia em uma certa alegria por estar participando do “purgatório da beleza e do caos”. Alguém criou um slogan, comparando a falência da capacidade da cidade de providenciar serviços urbanos a um festival: “Alagão 2010 – eu fui”. A TV transmitia ao vivo de um helicóptero que sobrevoava a cidade da Borges de Medeiros até o Borel. A cidade estava provisoriamente unida pela visão da chuva. Mas como disse alguém, todo carnaval tem seu fim.

O governador Cabral anunciava corretamente o desastre desde meados da tarde da terça-feira 6, talvez por preocupação genuína com as vidas dos favelantes ou pelo bom senso eleitoral, que não recomenda alienar grandes contingentes de população que votam e são apoiados pela solidariedade teórica de uma classe intelectual cujo raciocínio torturado confunde o invasor anarco-populista com a classe operária explorada.

A chegada da fase lacrimejante não foi acompanhada do dissolvimento das dificuldades com o Grande Alagão para boa parte dos bairros de classe média da cidade – eu me senti vagamente constrangido por morar tão longe do escritório, que já vinha sendo habitado pelos moradores do core e por estóicos habitantes de terras distantes, que batem ponto e atravessaram odisséias. Mas a ocupação desordenada das nossas colinas tinha tornado o alagão uma tragédia de porte considerável, com centenas de mortes. A cobertura televisiva cortou o sinal ao vivo e passou a repetir incontáveis vezes as mesmas imagens de deslizamento de terra e desespero de uma dúzia de favelantes que foram filmados como amostra. O humor escrachado no Twitter foi rapidamente substituído por lamentos incluindo a palavra “coitadinhos” e exortações a doar para os favelantes que ficaram desabrigados. À exceção de funcionários que eu insisto em chamar de “colegas de trabalho” mesmo quando sua colaboração consiste de café fresquinho, eu não sei quem são essas pessoas, apenas que elas estão aí por causa da pusilanimidade histórica do planejamento urbano carioca.

Honestamente, eu sou mais propenso a doar para a Anistia Internacional, que realiza dúzias de campanhas no mundo inteiro, virtualmente sem viés político, para defender a causa dos direitos humanos em regimes brutais e países aparentemente “normais” que ocasionalmente deixam escapar um impulso proto-fascista. Eu também não sei quem são esses chineses (google “Falun Gong”) que professam uma religião esquisitíssima, ou por que grandes contingentes de população permanecem passivos em relação à shari’a, mas a Anistia Internacional compartilha os meus valores básicos e me mantém a par de todas essas ameaças a um cenário mundial de progresso em direção à universalização dos direitos humanos e da participação democrática.

Existe uma razão séria pela qual eu não uso o termo geralmente aceito para os promotores da ocupação desordenada das colinas do Rio de Janeiro. Apesar das dificuldades da pobreza (e eles têm toda a minha simpatia enquanto pessoas pobres; não consigo imaginar o estresse acumulado de uma vida de luta pelo pão e não desconto a possibilidade de cair dramaticamente na distribuição de renda), estas pessoas não são “favelados”, vítimas passivas de circunstâncias fora de seu controle, mas agentes da favelização – favelantes – com todas as conseqüências sociais que conhecemos – começando pelo tráfico de armas e culminando na deterioração gradual do Estado, que precisa reagir constantemente na defensiva. Estas conseqüências, aliás, podem até incluir a eliminação da vegetação dos morros que de alguma forma (acho que ninguém sabe estimar ao certo o peso climatológico deste fator) absorve a humidade em estações chuvosas e a dispensa durante as estiagens horrendas que quase me fizeram desmaiar um par de vezes no verão.

Existem razões genuínas para condenar a ocupação desordenada das colinas, demonstradas dramaticamente em episódios de chuva forte. No entanto, os diversos esforços do planejamento urbano para resolver o problema das favelas são persistentemente sabotados pela violação das cercas e muros de contenção que são construídos como solução de compromisso para evitar o aprofundamento do processo de favelização. Com homens (e mulheres e transsexuais e praticantes do futevôlei) de envergadura intelectual presos em Cuba e na China por quererem se expressar livremente, eu não consigo juntar boa vontade para cariocas cujo pleito é não pagar um aluguel em Santa Cruz.

É evidente que o Grande Alagão de 2010 trouxe conseqüências trágicas, e que estas vêm sendo concentradas nas classes com menos condições de enfrentá-las. Mas a única conseqüência positiva da Fase Lacrimejante de quarta-feira, 7 de abril, é o alívio temporário para as dificuldades (dramáticas, que persistirão muito depois do entusiasmo por doações passar) enfrentada por favelantes que podem muito bem ser relativamente inocentes em relação às violações mais recentes do pacto entre o Estado e as invasões. No meio-tempo, a Fase Lacrimejante funciona como uma cortina de fumaça lama enquanto arrefecem as exigências de um planejamento urbano – aqui embaixo, onde se paga IPTU em troca de… serviços urbanos – que lide com os problemas enfrentados periodicamente pelos cariocas – trânsito, segurança pública, transportes coletivos adequados para as diferentes demandas de conforto, controle dos alagamentos (com chuvas esparsas de verão, a Voluntários da Pátria já esteve alagada em 2010, o aterro do Flamengo em 2008 e a praça Afonso Pena nos dias pares) — em suma, urbanismo de qualidade, alvejando qualidade de vida. Mas claro, à falta de vontade política alia-se a nossa predileção pelo caos, e as cobranças políticas que se elevam em períodos de crise se desfazem rapidamente — just like castles made of sand melt into the sea.

Rock star (I’m such a dirty, dirty)

Mesmo que comprometa a minha atitude rock star em relação ao trabalho, senti-me compelido a usar um par limpo (apesar de velho) de jeans. Eu vinha usando o mesmo par de calças, completo com o cinto e a carteira dentro, há semanas, às vezes dormindo em cima como travesseiro e em qualquer caso largado despreocupadamente. Foi, em parte, um pouco de insegurança em relação à minha performance no trabalho, aliada a uma afiliação aos tabus básicos da higiene na sociedade brasileira.

Usar roupas casuais em um ambiente de trabalho em que o código normal de vestimenta envolve camisa, gravata e por vezes paletó é uma demonstração não-linear de poder. Por um lado, significa que não sou um fusível intercambiável na máquina produtiva do escritório, sendo-me permitido certas excentricidades como o chimarrão, o jeans surrado mesmo em situações que exigem camisa social e paletó, bem como posters anti-cristãos do Marilyn Manson e propagandas soviéticas de ersatz-ervilhas. Por outro, significa que não estou transitando cotidianamente nas altas cúpulas do poder dentro da organização misteriosa na qual trabalho. Mais ainda, se eu conseguir fazê-lo  com o jeans amassado e sair com a minha reputação intacta, isso seria uma afirmação quase fálica de indispensabilidade à qual não me atrevo presentemente devido a uma certa insegurança profissional recente.

Morfogênese.org reafirma o que múltiplas fontes atribuem ao poder: o poder não é concedido, é tomado à força. Se eu consegui me vestir de forma gradualmente punk (eu comecei no emprego indo de camisa, calça e sapatos sociais, como um bom fusível do capitalismo), é porque eu tomei a iniciativa para tal, correndo os riscos associados ao desenvolvimento da minha carreira – à medida que a segurança psicológica sobre a estabilidade da minha carreira, y no más – ainda não uso sandálias, apenas tênis, mantenho o cabelo bem-comportado e as únicas t-shirts de rock que uso são discretas e relativamente obscuras (My Bloody Valentine em preto sobre vermelho; o logo do Nine Inch Nails, quase uma figura geométrica abstrata).

Se o uso de roupas casuais no escritório é uma demonstração não-linear de poder, também o é vestir o uniforme convencional da classe média profissional, embora estratificado de maneiras mais sutis. Quanto mais barato é o terno, menor é o status do profissional; no limite, o uso diário de camisas e gravatas sem paletó é indicativo de alguém sem suficientes ternos, mas procurando se inserir no visual conferido pelo terno. Mais ainda, o uso de roupas “profissionais” nos escalões iniciais da carreira é um indicativo da percepção individual da “fusibilidade”, da facilidade com que um profissional sente que pode ser substituído. Por outro lado, nos escalões medianos o uniforme pode indicar ambições factíveis de ascensão. Finalmente, ternos e outras roupas de qualidade superior sinalizam um poder de compra e um investimento na carreira mais extenso. Nas rachaduras do sistema, usa roupas casuais quem pode.

Em qualquer caso, o uniforme camisa-calça-sapatos-gravata é um indicativo de conservadorismo, o que pode vir da afirmativa de poder que se deseja expressar ou de uma atitude pessoal quanto à velocidade da mudança de valores no ambiente profissional. Uma percepção maior de risco nos escalões inferiores e uma percepção de mobilidade nos escalões medianos aumentam o grau de conservadorismo exibido na indumentária. (Os escalões superiores ainda são populados por pessoas cuja geração leva naturalmente ao conservadorismo; eu também serei considerado conservador daqui a 20 anos)

Esboçada a sociologia descritiva do jeans e da gravata no ambiente de trabalho, quais são as questões morfogenéticas de interesse aqui? Citando a mim mesmo,

A pergunta errada é “o que é isso”?

Uma pergunta um pouco melhor é “como isso ficou assim?”

Uma pergunta melhor ainda é “qual é o processo através do qual coisas que não eram assim assumem esta configuração estável?”

Como é que um uniforme desenhado para um clima mais inclemente ainda é predominante na cidade maravilha mutante?

Uma parte importante da resposta vem da relação entre risco e conservadorismo já mencionada. Conservadorismo responde por boa parte da estabilidade dos atratores indumentários, mas não completa uma narrativa de morfogênese.

Existem questões de história humana e não-humana aqui (a evolução paralela do algodão e do linho como exoderme humana), mas um ponto específico ao nosso clima é evidente: usar roupas de frio em um clima tropical implica em que se passa boa parte do dia em um ambiente refrigerado. Ambientes refrigerados são restritos à classe média profissional, e o uso de roupas adequadas à temperatura normal da cidade sinaliza a falta de acesso a ambientes refrigerados. Por outro lado, uma vez que as pessoas estão usando ternos e camisas sociais de mangas compridas, faz-se necessário que o ar seja refrigerado, por uma questão de bem-estar olfativo da população local.

Adicione o elemento de conservadorismo nas condições iniciais do sistema e tem-se um sistema dinâmico in se et per se. A presença de perturbações estocásticas como um econometrista pernóstico (e largamente marginal na estrutura hierárquica da organização) que obtém uma sensação de poder ao tirar o jeans amarrotado do meio do edredom não tem sido suficiente para chutar a trajetória do sistema para fora do equilíbrio observado. A decadência gradual do conservadorismo pode derail o sistema – possivelmente para um novo equilíbrio largamente ditado pelo conservadorismo em torno de um novo uniforme, ou para um regime cíclico a ser documentado pelas partes não-pornográficas das revistas masculinas.

Isso não significa, evidentemente, que uma massa crítica de elementos subversivos altere as normas vigentes na medida em que altera o alvo do conservadorismo social do ambiente de trabalho, mas não parece haver nada nas características morfogenéticas do uniforme camisa-e-gravata que permita uma revolução. Em ambientes mais liberais, povoados de elementos mais instáveis, como a vida acadêmica, a gravata parece estar em rota de extinção, o que abre a questão da morfogênese do conservadorismo da classe média profissional. Mas isso não tem nada a ver com a atitude mais humilde que tomei hoje de manhã ao vestir um jeans lavado e passado, e uma das minhas resoluções para 2010 é escrever mais, o que leva, no meu contexto, a ensaios mais orientados pelo pessoal. Não se pode teorizar sobre tudo, ainda mais de modo consistente, e boa parte do motivo pelo qual este tende a ser um thought log esparso é a tendência à generalização, que sem cuidado sempre tem resultados crus. Talvez outro dia.

O metrô de Ipanema precisa de mais uma esteira horizontal.

Reveillon 2010

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Dez nomes para o ano zero

Lista baseada, obviamente, no que me influenciou em 2009. Sem ordem particular,

  1. Manuel de Landa
  2. Jay Forrester
  3. Stafford Beer
  4. Christopher Alexander
  5. Jean-Yves Girard
  6. Alain de Botton
  7. Terry O’Reilly
  8. James Howard Kunstler
  9. Eric R. Weinstein
  10. Charles Stross

Palavra da semana

Permeabilidade

Permeability or connectivity describes the extent to which urban forms permit (or restrict) movement of people or vehicles in different directions.

Alguém me responde como é que se sai a pé da Barra e se chega na zona sul?

As transições de bairro da zona sul são quase todas ruins (porque mediadas por túneis), mas a partir da Gávea a situação é terrível. Mais inteligente é o desenvolvimento de Jacarepaguá, que é um centro urbano efetivo, embora não alcance a Barra.

Mais sobre permeabilidade em breve.

Escoamento de água

O escoamento de água no Rio continua um problema. Porra, é uma cidade na orla!

Optando pelo caos

Todos os dias, milhares de cariocas levam o carro de casa para o trabalho, e vice-versa. Dirigir é efetivamente um segundo emprego - requer atenção, paciência e impede o uso do tempo para outras atividades, como escrever, compor ou fotografar. Em geral é um trabalho solitário, e a manutenção do automóvel implica em gastos quase constante. Eu olho pela janela e vejo dezenas de carros  habitados por uma única pessoa, fazendo o trabalho que o motorista do ônibus do meu condomínio faz. ¿Por que?

As explicações convencionais enfatizam a qualidade do transporte público, tanto em segurança quanto conforto. Inegavelmente, eu não estaria escrevendo este ensaio no 175; a tranqüilidade trazida pelo fato de estar cercado pelos meus vizinhos (e portanto dentro do número de Dunbar) é um fator que contribui à minha recusa da cultura do automóvel particular. Mas mesmo isto é uma explicação parcial; o trajeto do ônibus do condomínio é limitado, e fora dele estou a pé, de metrô ou em ônibus convencionais.

O calor que esta cidade pode produzir é um fator. É difícil percorrer pequenos trajetos a pé no auge do sol,  e mesmo carros sem ar-condicionado atenuam a temperatura com o vento gerado pela velocidade. A oferta de transporte refrigerado é claramente insuficiente, tendo em vista o entupimento completo do metrô e o similar desconforto nos ônibus. Mas em casos de insuficiência de oferta, existe sempre um problema de ovo e galinha.

Considere a galinha. Uma viagem às 11 da manhã em um  ônibus sem refrigeração é torturante não apenas por causa da superlotação e do calor, mas pela lentidão que o trânsito e a parada em dezenas de pontos durante o caminho causam. Estes, por sua vez, dependem dos trajetos e das condições correntes sobre eles. A lentidão no trânsito pode ser parcialmente atribuída ao excesso de carros nas ruas, mas este é apenas o canal de feedback do processo. A parte interessante do problema está nos caminhos.

A topografia urbana do Rio de Janeiro pode ser descrita como um sprawl comprimido. Desde que a prefeitura tomou a decisão de evacuar o centro da cidade, esta se espalhou para longe dos centros de trabalho, consumo e lazer. Montanhas foram furadas para que a expansão linear continuasse. Por outro lado, a comunicação com o centro permaneceu importante, dando origem a uma cidade mais apertada - o que complica o problema do trânsito por si só.

Eu ensaio a hipótese de que a abundância de automóveis privados se deve à sua performance superior no contexto do ovo. Dados os trajetos bizarros, engarrafamentos e falta de segurança, a solução do existir em uma metrópole parece exigir rodas, cano de escape e milhares de amadores ao volante. ¿Que hacer?

Sabe-se que a difícil expansão do metrô para a zona sul depende não somente das projeções de demanda, mas da dificuldade de cavar túneis sob os terrenos instáveis irradiando da Lagoa.  A solução óbvia, mas politicamente inviável, é passar trilhos por cima da cidade, possivelmente sobre viadutos, cobrindo os principais focos de passageiros. Se há 50 anos os britânicos podiam contar com o trem das 10:13, chegando às 11:02, por que nós recusamos essa possibilidade?

Um dos fatores que nos impede é o fetiche da paisagem. É perfeitamente possível passar um trem por toda a orla da zona sul, eliminando as avenidas costeiras - sempre engarrafadas - permitindo uma programação arbitrariamente precisa, mas cariocas não gostam de sinal fechado.

Em parte, no entanto, o cérebro da cidade não demanda pontualidade, e o trânsito é sempre um pretexto factível para todas aquelas nossas pequenas falhas de planejamento. E no fim das contas, o pretexto é sintomático da cultura. Nós optamos pelo caos, e seus efeitos colaterais se insinuam no ovo - na oferta inadequada de ônibus, na falta de transporte sobre trilhos, na dificuldade de cobrir distancias relativamente curtas a pé, mesmo em dias amenos.

Uma das soluções, claro, é tornar a vida arbitrariamente difícil para os carros. Recentemente ventilou-se a possibilidade de fechar a av. Rio Branco para pedestres, o que tornaria o trânsito no centro da cidade impraticável - e isso seria bom­, mesmo que tivéssemos que enfrentar um metrô ainda mais entupido por alguns anos.

A outra solução vem sendo implementada ad hoc. Se não se pode ir da Barra ao centro, o centro vem à Barra. Novos focos empresarias surgem por lá e pela praia de Botafogo, ainda menos caótica que o centro. A descentralização tem grandes virtudes, mas fratura a cidade, que já apresenta sérias dificuldades de sustentar a energia necessária para rodar uma metrópole na sua configuração atual.

Morfogênese.org pensa que trilhos são a solução. Com horários marcados em frações menores que cinco minutos,  é mais fácil planejar parcelas do trajeto a pé, o que nos obriga a conviver com as nossas diferenças ­- com a nossa metade no espelho, que faz a outra metade do trabalho de sustentar uma economia frágil e sem rumo.

Propostas imediatas? Derrube-se o Jóquei e faça-se uma segunda estação central. E, raios, feche-se logo a Rio Branco. Fazendo coro com o meu bom amigo Bernardo, devolvamos a cidade ao cidadão!

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