Rock star (I’m such a dirty, dirty)

Mesmo que comprometa a minha atitude rock star em relação ao trabalho, senti-me compelido a usar um par limpo (apesar de velho) de jeans. Eu vinha usando o mesmo par de calças, completo com o cinto e a carteira dentro, há semanas, às vezes dormindo em cima como travesseiro e em qualquer caso largado despreocupadamente. Foi, em parte, um pouco de insegurança em relação à minha performance no trabalho, aliada a uma afiliação aos tabus básicos da higiene na sociedade brasileira.

Usar roupas casuais em um ambiente de trabalho em que o código normal de vestimenta envolve camisa, gravata e por vezes paletó é uma demonstração não-linear de poder. Por um lado, significa que não sou um fusível intercambiável na máquina produtiva do escritório, sendo-me permitido certas excentricidades como o chimarrão, o jeans surrado mesmo em situações que exigem camisa social e paletó, bem como posters anti-cristãos do Marilyn Manson e propagandas soviéticas de ersatz-ervilhas. Por outro, significa que não estou transitando cotidianamente nas altas cúpulas do poder dentro da organização misteriosa na qual trabalho. Mais ainda, se eu conseguir fazê-lo  com o jeans amassado e sair com a minha reputação intacta, isso seria uma afirmação quase fálica de indispensabilidade à qual não me atrevo presentemente devido a uma certa insegurança profissional recente.

Morfogênese.org reafirma o que múltiplas fontes atribuem ao poder: o poder não é concedido, é tomado à força. Se eu consegui me vestir de forma gradualmente punk (eu comecei no emprego indo de camisa, calça e sapatos sociais, como um bom fusível do capitalismo), é porque eu tomei a iniciativa para tal, correndo os riscos associados ao desenvolvimento da minha carreira – à medida que a segurança psicológica sobre a estabilidade da minha carreira, y no más – ainda não uso sandálias, apenas tênis, mantenho o cabelo bem-comportado e as únicas t-shirts de rock que uso são discretas e relativamente obscuras (My Bloody Valentine em preto sobre vermelho; o logo do Nine Inch Nails, quase uma figura geométrica abstrata).

Se o uso de roupas casuais no escritório é uma demonstração não-linear de poder, também o é vestir o uniforme convencional da classe média profissional, embora estratificado de maneiras mais sutis. Quanto mais barato é o terno, menor é o status do profissional; no limite, o uso diário de camisas e gravatas sem paletó é indicativo de alguém sem suficientes ternos, mas procurando se inserir no visual conferido pelo terno. Mais ainda, o uso de roupas “profissionais” nos escalões iniciais da carreira é um indicativo da percepção individual da “fusibilidade”, da facilidade com que um profissional sente que pode ser substituído. Por outro lado, nos escalões medianos o uniforme pode indicar ambições factíveis de ascensão. Finalmente, ternos e outras roupas de qualidade superior sinalizam um poder de compra e um investimento na carreira mais extenso. Nas rachaduras do sistema, usa roupas casuais quem pode.

Em qualquer caso, o uniforme camisa-calça-sapatos-gravata é um indicativo de conservadorismo, o que pode vir da afirmativa de poder que se deseja expressar ou de uma atitude pessoal quanto à velocidade da mudança de valores no ambiente profissional. Uma percepção maior de risco nos escalões inferiores e uma percepção de mobilidade nos escalões medianos aumentam o grau de conservadorismo exibido na indumentária. (Os escalões superiores ainda são populados por pessoas cuja geração leva naturalmente ao conservadorismo; eu também serei considerado conservador daqui a 20 anos)

Esboçada a sociologia descritiva do jeans e da gravata no ambiente de trabalho, quais são as questões morfogenéticas de interesse aqui? Citando a mim mesmo,

A pergunta errada é “o que é isso”?

Uma pergunta um pouco melhor é “como isso ficou assim?”

Uma pergunta melhor ainda é “qual é o processo através do qual coisas que não eram assim assumem esta configuração estável?”

Como é que um uniforme desenhado para um clima mais inclemente ainda é predominante na cidade maravilha mutante?

Uma parte importante da resposta vem da relação entre risco e conservadorismo já mencionada. Conservadorismo responde por boa parte da estabilidade dos atratores indumentários, mas não completa uma narrativa de morfogênese.

Existem questões de história humana e não-humana aqui (a evolução paralela do algodão e do linho como exoderme humana), mas um ponto específico ao nosso clima é evidente: usar roupas de frio em um clima tropical implica em que se passa boa parte do dia em um ambiente refrigerado. Ambientes refrigerados são restritos à classe média profissional, e o uso de roupas adequadas à temperatura normal da cidade sinaliza a falta de acesso a ambientes refrigerados. Por outro lado, uma vez que as pessoas estão usando ternos e camisas sociais de mangas compridas, faz-se necessário que o ar seja refrigerado, por uma questão de bem-estar olfativo da população local.

Adicione o elemento de conservadorismo nas condições iniciais do sistema e tem-se um sistema dinâmico in se et per se. A presença de perturbações estocásticas como um econometrista pernóstico (e largamente marginal na estrutura hierárquica da organização) que obtém uma sensação de poder ao tirar o jeans amarrotado do meio do edredom não tem sido suficiente para chutar a trajetória do sistema para fora do equilíbrio observado. A decadência gradual do conservadorismo pode derail o sistema – possivelmente para um novo equilíbrio largamente ditado pelo conservadorismo em torno de um novo uniforme, ou para um regime cíclico a ser documentado pelas partes não-pornográficas das revistas masculinas.

Isso não significa, evidentemente, que uma massa crítica de elementos subversivos altere as normas vigentes na medida em que altera o alvo do conservadorismo social do ambiente de trabalho, mas não parece haver nada nas características morfogenéticas do uniforme camisa-e-gravata que permita uma revolução. Em ambientes mais liberais, povoados de elementos mais instáveis, como a vida acadêmica, a gravata parece estar em rota de extinção, o que abre a questão da morfogênese do conservadorismo da classe média profissional. Mas isso não tem nada a ver com a atitude mais humilde que tomei hoje de manhã ao vestir um jeans lavado e passado, e uma das minhas resoluções para 2010 é escrever mais, o que leva, no meu contexto, a ensaios mais orientados pelo pessoal. Não se pode teorizar sobre tudo, ainda mais de modo consistente, e boa parte do motivo pelo qual este tende a ser um thought log esparso é a tendência à generalização, que sem cuidado sempre tem resultados crus. Talvez outro dia.

O metrô de Ipanema precisa de mais uma esteira horizontal.

Reveillon 2010

p1150372

p1150382

p1150384

p1150390

p1150391

p1150392

p1150395

Dez nomes para o ano zero

Lista baseada, obviamente, no que me influenciou em 2009. Sem ordem particular,

  1. Manuel de Landa
  2. Jay Forrester
  3. Stafford Beer
  4. Christopher Alexander
  5. Jean-Yves Girard
  6. Alain de Botton
  7. Terry O’Reilly
  8. James Howard Kunstler
  9. Eric R. Weinstein
  10. Charles Stross

Palavra da semana

Permeabilidade

Permeability or connectivity describes the extent to which urban forms permit (or restrict) movement of people or vehicles in different directions.

Alguém me responde como é que se sai a pé da Barra e se chega na zona sul?

As transições de bairro da zona sul são quase todas ruins (porque mediadas por túneis), mas a partir da Gávea a situação é terrível. Mais inteligente é o desenvolvimento de Jacarepaguá, que é um centro urbano efetivo, embora não alcance a Barra.

Mais sobre permeabilidade em breve.

Escoamento de água

O escoamento de água no Rio continua um problema. Porra, é uma cidade na orla!

Optando pelo caos

Todos os dias, milhares de cariocas levam o carro de casa para o trabalho, e vice-versa. Dirigir é efetivamente um segundo emprego - requer atenção, paciência e impede o uso do tempo para outras atividades, como escrever, compor ou fotografar. Em geral é um trabalho solitário, e a manutenção do automóvel implica em gastos quase constante. Eu olho pela janela e vejo dezenas de carros  habitados por uma única pessoa, fazendo o trabalho que o motorista do ônibus do meu condomínio faz. ¿Por que?

As explicações convencionais enfatizam a qualidade do transporte público, tanto em segurança quanto conforto. Inegavelmente, eu não estaria escrevendo este ensaio no 175; a tranqüilidade trazida pelo fato de estar cercado pelos meus vizinhos (e portanto dentro do número de Dunbar) é um fator que contribui à minha recusa da cultura do automóvel particular. Mas mesmo isto é uma explicação parcial; o trajeto do ônibus do condomínio é limitado, e fora dele estou a pé, de metrô ou em ônibus convencionais.

O calor que esta cidade pode produzir é um fator. É difícil percorrer pequenos trajetos a pé no auge do sol,  e mesmo carros sem ar-condicionado atenuam a temperatura com o vento gerado pela velocidade. A oferta de transporte refrigerado é claramente insuficiente, tendo em vista o entupimento completo do metrô e o similar desconforto nos ônibus. Mas em casos de insuficiência de oferta, existe sempre um problema de ovo e galinha.

Considere a galinha. Uma viagem às 11 da manhã em um  ônibus sem refrigeração é torturante não apenas por causa da superlotação e do calor, mas pela lentidão que o trânsito e a parada em dezenas de pontos durante o caminho causam. Estes, por sua vez, dependem dos trajetos e das condições correntes sobre eles. A lentidão no trânsito pode ser parcialmente atribuída ao excesso de carros nas ruas, mas este é apenas o canal de feedback do processo. A parte interessante do problema está nos caminhos.

A topografia urbana do Rio de Janeiro pode ser descrita como um sprawl comprimido. Desde que a prefeitura tomou a decisão de evacuar o centro da cidade, esta se espalhou para longe dos centros de trabalho, consumo e lazer. Montanhas foram furadas para que a expansão linear continuasse. Por outro lado, a comunicação com o centro permaneceu importante, dando origem a uma cidade mais apertada - o que complica o problema do trânsito por si só.

Eu ensaio a hipótese de que a abundância de automóveis privados se deve à sua performance superior no contexto do ovo. Dados os trajetos bizarros, engarrafamentos e falta de segurança, a solução do existir em uma metrópole parece exigir rodas, cano de escape e milhares de amadores ao volante. ¿Que hacer?

Sabe-se que a difícil expansão do metrô para a zona sul depende não somente das projeções de demanda, mas da dificuldade de cavar túneis sob os terrenos instáveis irradiando da Lagoa.  A solução óbvia, mas politicamente inviável, é passar trilhos por cima da cidade, possivelmente sobre viadutos, cobrindo os principais focos de passageiros. Se há 50 anos os britânicos podiam contar com o trem das 10:13, chegando às 11:02, por que nós recusamos essa possibilidade?

Um dos fatores que nos impede é o fetiche da paisagem. É perfeitamente possível passar um trem por toda a orla da zona sul, eliminando as avenidas costeiras - sempre engarrafadas - permitindo uma programação arbitrariamente precisa, mas cariocas não gostam de sinal fechado.

Em parte, no entanto, o cérebro da cidade não demanda pontualidade, e o trânsito é sempre um pretexto factível para todas aquelas nossas pequenas falhas de planejamento. E no fim das contas, o pretexto é sintomático da cultura. Nós optamos pelo caos, e seus efeitos colaterais se insinuam no ovo - na oferta inadequada de ônibus, na falta de transporte sobre trilhos, na dificuldade de cobrir distancias relativamente curtas a pé, mesmo em dias amenos.

Uma das soluções, claro, é tornar a vida arbitrariamente difícil para os carros. Recentemente ventilou-se a possibilidade de fechar a av. Rio Branco para pedestres, o que tornaria o trânsito no centro da cidade impraticável - e isso seria bom­, mesmo que tivéssemos que enfrentar um metrô ainda mais entupido por alguns anos.

A outra solução vem sendo implementada ad hoc. Se não se pode ir da Barra ao centro, o centro vem à Barra. Novos focos empresarias surgem por lá e pela praia de Botafogo, ainda menos caótica que o centro. A descentralização tem grandes virtudes, mas fratura a cidade, que já apresenta sérias dificuldades de sustentar a energia necessária para rodar uma metrópole na sua configuração atual.

Morfogênese.org pensa que trilhos são a solução. Com horários marcados em frações menores que cinco minutos,  é mais fácil planejar parcelas do trajeto a pé, o que nos obriga a conviver com as nossas diferenças ­- com a nossa metade no espelho, que faz a outra metade do trabalho de sustentar uma economia frágil e sem rumo.

Propostas imediatas? Derrube-se o Jóquei e faça-se uma segunda estação central. E, raios, feche-se logo a Rio Branco. Fazendo coro com o meu bom amigo Bernardo, devolvamos a cidade ao cidadão!

HUAWEI Mobile no Snow Leopard

Porque dar uma ajudinha ao PageRank da questão nunca atrapalha.

Os modems HUAWEI são usados pelos planos 3G da Vivo, até onde eu sei, e possivelmente de outras operadoras. Ao instalar o Snow Leopard, estes deixam de funcionar.

Alguém – sob o pseudônimo tocnet2 num fórum de Mac – acaba de ganhar a minha admiração, encontrando uma solução abstrusa em pouquíssimo tempo.

A razão é simples. Por algum motivo a versão Intel devia estar fazendo chamadas ilegais simplesmente pq o Driver foi feito para o Leopard.

MAS!, se eu usar o Rosetta nada disso ocorre. Pq como ele emula o hardware antigo ele também emula as chamadas antigas. Bingo.

Brilhante.

As instruções completas, que consistem em editar um arquivo de script escondido no instalador escondido no discador estão neste tópico do fórum MacNews. A única coisa que eu adicionaria, e apenas porque ele esqueceu de mencionar isso no texto, é que o arquivo de script a ser editado (encontrado em um local que o autor ensinará a achar) chama-se POSTINSTALL.

Como usar palitinhos de madeira

Então eu estava saindo da ex-pastelaria sob-novo-conceito ao lado da FGV, e peço que o meu yakissoba para viagem venha com os “palitinhos de madeira”, e não com garfo e faca de plástico – não sei se é só impressão minha, mas talheres de plástico deixam gosto na comida. O sujeito do balcão, que trabalha para os chineses mas tem sotaque e feições do nordeste brasileiro, responde com ar de sabido: “Ah, hashi, né? Eu vou pegar pra você”.

Hashi é uma palavra japonesa. Sim, os palitinhos de madeira com que se come chamam-se hashi em japonês (não é lenda urbana; eu aprendi isso no curso de japonês que existe no Leblon, com livros-texto legit), mas os donos da ex-pastelaria-sob-novo-conceito são chineses e o yakisoba (com dois SS em bom português) é um chow mein (que varia muito de região para região na China) adaptada ao gosto nipônico. Existe de fato uma boa chance de que o que os chineses me vendem como yakissoba seja o chow mein da sua região de origem, modulado pela disponibilidade e preço dos legumes no Rio de Janeiro. Então, por favor, vamos deixar o poseur que há dentro de nós fora da Ásia: são palitinhos de madeira, varetas ou palitinhos tout court.

Bullet points, em bom português:

  • Comer com palitinhos é como andar de skate: é difícil à beça, até que você esquece do skate e se preocupa em desviar os obstáculos à sua frente. É como Neo na sala branca – você simplesmente procura esquecer que é impossível e faz. É provável que você não precise das outras dicas se lembrar de esquecer na hora de comer.
  • O palitinho não é uma tesoura. Eu demorei até os 26 anos para conseguir usar palitinhos porque a impressão que se tem ao ver outra pessoa é que as varetas são articuladas em alavanca, como em uma tesoura. Você não vai conseguir segurar um eixo enquanto alavanca a outra ponta.
  • Os japoneses (e presumivelmente os chineses, de quem os japoneses chuparam quatro quintos da sua cultura) comem arroz com palitinhos de madeira porque não preparam soltinho como se faz aqui. Eu não estou defendendo que uma das duas formas de preparar arroz seja a melhor; simplesmente estou dizendo pra não ficar ansioso porque eles conseguem comer arroz com varetas de madeira
  • Não fique preocupado com a forma “certa” de usar as varetas. São palitinhos de madeira, não um ritual sagrado. Os japoneses que comem o seu ramen às pressas estão pensando tanto na tradição do hashi quanto os operários italianos estão pensando na tradição do azeite de oliva quando comem uma pizza. Você reconhece alguém que esteve na Itália porque ele derruba azeite na pizza sem pena nem glória, seja virgem, extra virgem ou slutty. (Pode ser que a sua mãe tenha lhe ensinado que existe uma forma certa de segurar o garfo. Fight the power!)
  • Corolário: se você estiver comendo algum prato tradicionalíssimo em uma situação diplomática complexa envolvendo os destinos de dois países, você sempre pode pedir garfo e faca, ou melhor ainda, desculpar-se condicionalmente pela sua técnica com as varetas – “desculpem-me pela minha técnica inapropriada” é errado, “desculpem se a minha técnica é inapropriada” é certo.
  • Se você ainda não conseguiu comer um yakissoba com dois SS com palitinhos, o meu truque é segurar um eixo como se fosse uma tesoura com os dedos mínimo e anular, e usar o resto da mão para operar os palitos como uma pinça. Quando cansa, troco os dedos.
  • Eu aprendi a comer com palitinhos porque um dia desses eles apareceram na sacola para viagem da ex-pastelaria no lugar dos talheres de plástico, e eu já estava no ônibus do condomínio em movimento. A melhor forma de aprender a usar palitinhos é comer um prato gostoso quando você está morrendo de fome. Sem medo.
  • Por que palitinhos?
    • Uma vez que você pega o jeito, é mais rápido, e eu só tenho dois meses de prática.
    • Talheres de plástico não biodegradam, enquanto o palito descartável de madeira queima sem deixar gases tóxicos e/ou pode ser reciclado.
    • Eu tenho a sensação subjetiva de que o gosto do talher de plástico fica na comida.
    • Tenho a impressão de que o chow mein – nome genérico em chinês para pratos como o yakisoba, feitos de macarrão frito com carne legumes – é comido com palitinhos pela boa razão de que a forma mais saborosa de ingerí-lo não é enrolando o macarrão como se faz com o espaguete, mas em pedaços heterogêneos, aproximadamente do mesmo tamanho, contendo aleatoriamente macarrão, legumes e carne. A própria estrutura do macarrão sugere isso – são talharins curtinhos, prontos para pinçar.

Aliás, eu ainda não aprendi a técnica de enrolar o espaguete com garfo e colher, e aposto que um italiano tradicionalista, ao me ver comer talharim, não notaria o atabalhoamento (apenas por uma tecnicalidade, porque eu sei enrolar espaguete de modo ad hoc, sem a colher) e aprovaria o meu uso liberal do azeite como italiano da gema.

Esta corrosão.

O decaimento desta cidade tem mais a ver com Chicago do que Detroit - não uma aglomeração industrial do século XX em processo de dissolução, mas o resultado de uma derrota na competição pelo centro intelectual e político. O processo de seleção e sedimentação é recente o suficiente para que exista uma desconexão na passagem entre as gerações: as expectativas dos meus coetâneos se elevaram - em relação às condições da geração dos nossos pais - enquanto as possibilidades concretas da cidade se corroíam.

Nós não somos os órfãos de um contexto de primeiro mundo que nunca veio. São Paulo exibe mais evidentemente o choque - de um lado, a realidade de uma trajetória continental de gargalos e ciclos de progresso e retrocessos; de outro, o paradigma de desenvolvimento que corre nas veias de seus intelectuais e capitalistas. O Rio de Janeiro é uma cidade de herdeiros, e como tais nós desfrutamos de possibilidades de busca - por auto-descobrimento e realização predicada na quieta certeza de que as necessidades materiais básicas não chegariam nunca a ser um problema  com o qual lidar.

Evidentemente, isto não é um absoluto - afirmativas sobre uma geração devem ser moduladas por e através das distribuições dos parâmetros - renda, educação, especificidades cognitivas e neurológicas. Mais importantemente, as pervasivas marcas visuais do subdesenvolvimento garantiram que nunca ficássemos inteiramente cegos sobre a frágil espessura da teia de privilégio sobre a qual andamos. Na busca por auto-realização, nós sempre tivemos janelas de escape ostensivas - os anos de estudo em direção a profissões supostamente sólidas e remuneráveis. No entanto - mesmo que quase sempre inconscientemente - estas cláusulas de realidade sempre foram um loss leader em contraste com o que nós efetivamente acabaríamos fazendo - fotógrafos, poetas, intelectuais.

Uma depressão econômica relevante desfoca essas estratégias e perdoa sua miopia em face à avalanche maior que se aproxima. A outra rota de fuga é o breakdown mental, apoiado nessas novas taxonomias das sociedades inclusivas: bipolar, borderline,  ADHD, maladjusted. Nenhuma destas está realmente sob nosso controle ou foi planejada em primeiro lugar - nossa janela de escape era a inserção cuidadosa na realidade do subdesenvolvimento como pequenos administradores. E não se pense que estas rotas de fuga não são dilúvios devastadores, muito além de qualquer estratégia inconsciente, dissociação cognitiva - o observador separado do indivíduo sujeito às condições inevitáveis da realidade - ou plano míope e ambicioso.

O que está na ponta do precipício, no entanto, é a percepção futura das tentativas intelectuais da nossa geração, e mais ainda a percepção futura da possibilidade, mesmo que teórica, de manter a dissociação intelectual/administrador sem abandonar a cidade, condenando-a incrementalmente à corrosão. E o precipício da nossa geração vai na direção oposta aos precipícios dos seus indivíduos. Como se fôssemos uma colônia de bactérias em uma solução ágar-ágar preparada especialmente para o nosso florescimento, o sucesso do nosso experimento está predicada precisamente na sua interrupção por circunstâncias externas que obscureçam os dados. Nós nunca fomos uma missing generation, e no entanto pode ser necessário para a resiliência desta sociedade que a crônica das gerações nos registre como uma.

« Previous Entries